Profissões: Produtor de TV

Quer saber como funciona os bastidores de um programa de TV? Batemos um papo com Gabriel Pernambuco Produtor do Programa A LIGA.

Profissões:Produtor de TV

Por Mia Vargas

Muitas pessoas ao ligar a TV não tem ideia da quantidade de profissionais envolvidos para que aquele conteúdo chegue até a tela.
Um exército de pessoas, muitas reuniões de pautas, criação, ensaios e noites e noites sem dormir. Então fomos atrás do produtor de conteúdo e diretor de externa Gabriel Pernambuco do programa A LIGA da TV Bandeirantes para entender como funciona todo processo de execução de um programa e também sua opinião sobre pra onde o destino da TV caminha,
Profissões Produtor de TV - Gabriel Pernambuco

FPH: COMO VC COMEÇOU A CARREIRA NA TV?
GABRIEL: Minha carreira na TV começou de forma inusitada. Através de uma grande amiga, recebi a oportunidade de participar de um casting para ser novo apresentador do programa A Liga, no período entre a segunda e a terceira temporadas. Montei um currículo diferente, nada de documento de Word ou algo do tipo, e mandei meu material em vídeo – algumas reportagens que havia feito como estagiário na Assessoria de Comunicação da Secretaria Municipal de Esportes, Lazer e Recreação da Prefeitura de São Paulo e duas coberturas, que produzi e reportei com alguns amigos, das grandes festas que minha universidade organizava na época.
Fiz os testes de câmera, gravei uma pauta-teste e fiquei aguardando. Depois de quase um mês sem notícias, recebi uma ligação para conversar novamente com o diretor do programa, Sebastián Gadea. Foi, então, que surgiu a oportunidade para um trabalho de 4 meses como produtor de conteúdo do programa, um “freela”.

FPH: A LINGUAGEM TELEVISIVA É MUITO DIFERENTE DE ASSESSORIA DE IMPRENSA E COMUNICAÇÃO, ESSA ADAPTAÇÃO FOI FÁCIL?
GABRIEL: Quando comecei na produção do programa, na terceira temporada (2012), não tinha experiência com produção de conteúdo para televisão. Havia trabalhado com assessoria de imprensa e planejamento estratégico de comunicação para alguns grandes clientes de São Paulo, como Secretaria Municipal de Esportes, Consulado da Holanda no Brasil e Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de São Paulo. Objetivamente, eu recebia a temática a ser abordada no programa pela coordenação de conteúdo e direção, depois pensava em como abordar o tema a partir de diferentes pontos de vista e, em uma reunião, alinhávamos as pautas e partíamos para a produção. A direção e coordenação eram imprescindíveis para o processo (sempre são) por conta da minha experiência. Eu tive a oportunidade de aprender muito enquanto lidava com as demandas.

FPH: ENTÃO FOI ASSIM QUE VOCÊ CHEGOU A LIGA?
GABRIEL: Depois desse período de 4 meses, meu contrato não foi renovado. Eu saí da produção do programa, mas cerca de um mês depois, recebi outra oportunidade, mais uma vez do Sebastián Gadea, para voltar a mesma produtora e fazer assistência de produção para um programa chamado “Quem Quer Casar Com Meu Filho”. Essa produção durou uns 5 meses e foi uma ótima escola. Eu voltava para um cargo com menor responsabilidade e tinha mais espaço para errar e aprender, foi fundamental para meu desenvolvimento. Depois disso, fui chamado para uma entrevista para produzir “O Mundo Segundo os Brasileiros”. Fiquei por lá mais 4 meses, produzi e gravei quatro episódios e acabei saindo mais uma vez da produtora. Fiquei fora uns 6 meses até que, mais uma vez, o Sebastián me ligou e chamou para conversar. Era mais um “freela” de 3 meses e meio, para voltar a produzir o A Liga. Fiz esses três meses, no final do ano passado, e acabei fechando com ele para a quinta temporada. Agora, cá estou!
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FPH: COMO VC VÊ A TV BRASILEIRA HOJE. SUA PROGRAMAÇÃO E CONTEÚDO?
GABRIEL: A TV brasileira, a meu ver, está passando por um processo de grande mudança. A chegada das produtoras de formatos, como a Eyeworks – Cuatro Cabezas – do Brasil (responsável por formatos como A Liga, CQC, Agora é Tarde, Mulheres Ricas, etc.) e a consequente divisão da produção de conteúdo com as grandes redações, modernizou o conteúdo e acirrou a concorrência. A programação está sendo mais pautada pelo público e os formatos estão correndo atrás dessa audiência de demanda mais específica. As grandes emissoras estão mais abertas e o conteúdo é feito de maneira mais profissional, decorrência da globalização e experiência internacional dessas produtoras de formatos. A programação acaba sendo mais eclética e dinâmica. O conteúdo ganha em liberdade de produção.

FPH: COM O AVANÇO CADA VEZ MAIOR DA COMUNICAÇÃO ON LINE, VOCÊ ACHA QUE A TV É FUTURO?
GABRIEL: Acho que a linguagem televisiva está consolidada há tempos e ela pauta as transformações das diferentes linguagens que vieram a seguir, inclusive a internet. A TV é o futuro, mas não a forma cuja qual a consumimos hoje. Acredito num futuro (que já é presente) crossmidiático, ou melhor, transmidiático. Ou seja, as linguagens se misturarão, assim como a maneira de consumo do conteúdo. A comunicação se utilizará das diferentes linguagens para atingir seus objetivos de maneira mais plena. Pudemos acompanhar isso na novela “Cheia de Charme” com aquela história das empreguetes – cuja participação do público através da internet foi essencial para a construção da narrativa da novela, inclusive o clipe do “hit” das empreguetes foi lançado online primeiro e depois o vimos na telinha. Teremos a TV no futuro, mas a consumiremos de maneira completamente diferente e quase que sempre dialogando com alguma outra linguagem – na maioria das vezes, internet.

FPH: O CONTEÚDO DE INTERNET ESTÁ CADA VEZ GANHANDO MAIS FORÇA, FEITO DE FORMA INDEPENDENTE COM ORÇAMENTO BAIXO ISSO MOSTRA PARA A TV QUE A IDEIA AINDA VALE MAIS DO QUE UMA ALTA PRODUÇÃO?
GABRIEL?A ideia é essencial sempre. Tanto a baixa quanto a alta produção estão atrás disso. Uma boa ideia é o que sustenta a produção e a efetividade de sua realização. A internet trouxe mais visibilidade as produções de baixo orçamento, mas elas estão aí desde sempre! Vários longas e curtas cinematográficos atingem muito mais público do que a produção executiva esperava quando consolidou o orçamento. Sempre vai ser uma questão sobre a “qualidade” da ideia, mas o que é indiscutível é que a grande produção consegue contar a história com mais recursos técnicos, portanto, o produto final fica mais fácil de consumir.

FPH: COMO VOCÊ VÊ A POPULARIDADE DO PROGRAMA A LIGA E SUA RELAÇÃO COM O PÚBLICO?
GABRIEL: O programa é extremamente popular. Popular no sentido de grande consumo pela massa e popular no sentido de não ser elitista. Acho que essa é a maior característica da relação do A Liga com o seu público. Nós, geralmente, mostramos o que os outros não mostram. Nós entramos onde outros veículos não entram. E quando abordamos temas que os outros também mostram, o contamos de maneira completamente diferente do que se vê nos programas de mesmo cunho das outras emissoras. Nosso relato é pautado pela participação direta do nosso apresentador na vivência daquilo que se retrata, seja uma festa da alta sociedade, seja a Cracolândia (lugar comum para falar do nosso trabalho, mas, ok! Isso só é possível pela identificação que o público tem com o programa, com o formato e a atuação de nossos apresentadores. Com isso, quebramos regras sociais já estabelecidas na relação público/produção. Exemplo disso foi a nossa ida ao presídio de segurança máxima na Paraíba, nós fomos recebidos pelos agentes penitenciários da mesma maneira que fomos recebidos pelo aprisionados. Com respeito ao nosso trabalho e liberdade para retratar aquilo que acontece, de fato, lá dentro. Isso é fruto da popularidade do programa, em ambos os sentidos, e da relação com o público. E em todos os lugares que fui, desde o interior de São Paulo, até a Amazônia, nosso programa é conhecido e nossos apresentadores reconhecidos.

FPH: QUAL O PÚBLICO MAIS FÁCIL DE AGRADAR?
GABRIEL: O público mais fácil de agradar é aquele que não se interessa por aprofundamento e contextualização. O que não é nosso caso, então, confesso não ter experiência com um público fácil de agradar.
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FPH: VOCÊ TEM ALGUMA HISTÓRIA ENGRAÇADA PRA NOS CONTAR DOS BASTIDORES DO A LIGA?
GABRIEL: Várias. Acho que a mais curiosa foi quando acabei assaltado por um travesti em uma famosa zona de prostituição em São Paulo. Estava pré-produzindo uma matéria sobre o tema, parei o carro para conversar com um grupo de travestis e um deles acabou entrando pela janela do carro no intuito de “vender” seu programa. Nessa empreitada janela adentro, ela acabou pegando meu celular que estava no compartimento próximo ao freio de mão do carro. Sacou uma faca e passou a me ameaçar com a mesma. Queria que eu pagasse R$ 150 reais para tê-lo de volta. Depois de muuuuuuito xaveco e alguns momentos de tensão, consegui convencê-la a devolver, afinal, eu estava lá trabalhando assim como ela e a tática dela – que era ligar para os meus contatos a fim de denunciar um suposto programa que eu teria feito com ela – não funcionaria. Todos sabem que sou jornalista e meu trabalho inclui passar por universos como esse. Ela raspou a tela do meu celular no chão e me devolveu, pediu em troca uma foto minha fazendo cara de dó pedindo o celular de volta. Isso rendeu um adesivo que até hoje figura na maçaneta da porta da produção do programa escrito: “Fui roubado por um travesti” (risos).

FPH: NO BRASIL A GRANDE MAIORIA DE NOSSA POPULAÇÃO AINDA NÃO TEM TV PAGA, VOCÊ ACHA QUE ISSO APROXIMA O PUBLICO DOS PROGRAMAS COMO O A LIGA?
GABRIEL: Não acho que aproxima. Acho que é o caminho inverso. Quanto mais acesso à TV paga, mais a audiência se dissipará. E torço sempre para que todos tenham mais acesso a informação, mas é importante exercitarmos nosso senso crítico, afinal, quanto mais canais de informação, mais difícil será distinguir aquilo que de fato informa, com aquilo que entretém.

FPH: ACHA QUE A TV ABERTA VAI ACABAR NO BRASIL?
GABRIEL: Nunca. Isso não existe. As concessões estão aí e os contratos são muito longos e devem ser renovados sem grandes problemáticas. A audiência vai migrar, os formatos vão mudar, o consumo vai se transformar, mas a TV aberta vai estar aí nesse jogo como um dos principais atores, tenha certeza!

FPH: COMO É SEU RELACIONAMENTO COM OS JORNALISTAS DO A LIGA?
GABRIL: Meu relacionamento é ótimo. Tanto com os apresentadores, quando com os colegas de produção, câmeras e assistentes. Nosso processo de produção e gravação nos aproxima muito. Passamos por situações complexas e que exigem um senso de equipe muito grande. Isso colabora para que nossa relação seja sempre muito sincera e honesta. Isso gera grandes amizades.

FPH: CONDUZIR AS GRAVAÇÕES, ORIENTAR OS JORNALISTAS CRIAR AS PAUTAS, COMO É ISSO PRA VOCÊ?
GABRIEL: É um grande desafio. Pensar pautas e roteirizá-las é um trabalho mais jornalístico, eu diria. Exige características que se aprende na faculdade. Apuração, fontes confiáveis, pesquisa com critério, enfim… Já a parte de condução das gravações é uma questão, a meu ver, de perfil. O diretor de externas, nosso cargo quando saímos de dentro da redação, é uma espécie de líder de uma equipe. Você precisa estar atento à tudo e à todos. Desde o formato do programa, até a alimentação da equipe. É um trabalho para quem gosta de mediar conflitos, planejar e organizar atividades, bem como garantir que as coisas saem conforme o planejado. É um exercício de liderança e execução de planejamento, além de mediar personalidades distintas. O que ajuda é que todos querem a mesma coisa, voltar com a matéria gravada. Orientar os apresentadores é um capítulo à parte. Todos eles são muito experientes e eu cresci assistindo ao Cazé e o Thaíde na MTV, para orientá-los é preciso estar muito alinhado com a pauta, ter pesquisado muito antes de construí-la e saber a hora de colocar aquilo que você acha que é necessário para que o conteúdo siga a linha desejada pela direção do programa. É preciso respeitar a contribuição espontânea e pessoal de cada um deles, sem deixar que o conteúdo saia muito da linha pensada anteriormente.

FPH: A GRANDE MÍDIA CONCENTRA SEUS TEMAS SEMPRE COM APELOS SEXUAIS, COMO VOCÊ VÊ ISSO E SE ESTE FORMATO É MUITO USADO NO A LIGA;
GABRIEL: Não, isso não é muito utilizado pelo A Liga. A temática do sexo está sempre presente na linha editorial do programa, mas não o apelo sexual. Isso não tem vez. O sexo, como diversos outros temas, está em pauta na sociedade brasileira e dá gancho para diversas polêmicas, problemáticas, tabus e esclarecimentos. Isso é muito utilizado no A Liga. Agora, o apelo sexual, apenas pela busca de audiência está completamente fora dessa linha. Somos um programa de infotenimento com apelo jornalístico. Não ocupamos o espaço do programa pautados pelo que dá audiência e sim com o que é relevante socialmente, isso para passar um aspecto geral da nossa linha editorial. Para conhecer o resto, só trabalhando aqui mesmo, não dá para sair contando. Rsrs…
A minha opinião sobre a utilização do apelo sexual na busca de audiência é que isso funciona, mas eu não faria. Várias coisas funcionam e é opção nossa realizá-las ou não. Isso vale para a produção de conteúdo televisivo, mas vale também para várias outras esferas da vida. E, penso eu, é necessário um posicionamento incisivo em relação a esse tipo de coisa. E outra, a formação da maioria das pessoas que trabalham no programa é em Jornalismo.

FPH:VOCÊ FOI APRESENTADOR EM OUTRAS ÉPOCAS E AGORA COMO É ESTAR ATRÁS DAS CÂMERAS?
GABRIEL: É ótimo! A frente das câmeras pode até ser uma opção para o futuro. Muita coisa é, inclusive. Mas trabalhar atrás das câmeras me proporciona exercitar características pessoais e profissionais muito mais importantes para meu crescimento nessa fase da vida do que ser apresentador. Trabalhando atrás das câmeras, eu tenho a oportunidade de participar do processo de produção como um todo, desde a criação e aprovação das pautas, até a edição, montagem e roteirização do programa. Estou muito satisfeito com a função que exerço dentro do programa. E não preciso ter paciência para tirar foto com todo mundo na rua. Rsrs…

FPH:PRA VOCÊ HOJE, QUAL O MELHOR PROGRAMA DA TV BRASILEIRA. (SEM SER A LIGA CLARO!).
GABRIEL: Difícil, hein. Tem bastante coisa boa por aí! Tem muita coisa ruim, mas tem muita coisa boa também. Tenho um certo apreço pelos programas de temática semelhantes ao A Liga, como o Profissão Repórter e o Conexão Repórter. O CQC revolucionou a televisão brasileira, a meu ver. Mas eu diria que o melhor, sem considerar o lugar em que eu trabalho, é o Metrópolis, da TV Cultura. Agora, o melhor jornalismo, para mim, é praticado pela ESPN Brasil, apesar do foco no esportivo, é a linha editorial mais idônea e independente que conheço.

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